Principal Fique por dentro Memórias e agradecimentos Mangalarga – Da influência da família Junqueira até a atualidade.

Mangalarga – Da influência da família Junqueira até a atualidade. PDF Imprimir E-mail
Escrito por VivianJunqueira   
Qua, 30 de Julho de 2008 23:14

Há várias versões e até lendas para a denominação ‘Mangalarga’. A mais consistente, segundo pesquisadores, está relacionada com a Fazenda Mangalarga, localizada em Pati do Alferes, no Estado do Rio de Janeiro. Seu proprietário era um rico fazendeiro que, impressionado com os cavalos da família Junqueira, adquiriu alguns exemplares de Gabriel Francisco Junqueira "O Barão de Alfenas", fazendeiro do Sul de Minas e Deputado na Corte.

Vez por outra, os proprietários da Fazenda Mangalarga iam à Corte com os cavalos sul-mineiros. Quando alguém se interessava pelos animais, eles indicavam as fazendas do Sul de Minas como sendo a origem dos cavalos. Quando os compradores iam ao Sul de Minas, pediam cavalos iguais aos da Fazenda Mangalarga. E com o tempo, esta referência acabou transformando-se em nome. Outras versões existem, mas ao que tudo indica, são baseadas em lendas e fantasias.

Surgimento

A raça Mangalarga é tipicamente brasileira e surgiu no Sul de Minas, através do cruzamento de cavalos da raça Alter - trazidos da Coudelaria de Alter do Chão, em Portugal - com outros cavalos selecionados pelos criadores daquela região mineira.

A base de formação dos cavalos Alter é a raça espanhola Andaluza, cuja origem étnica vem de cavalos nativos da Península Ibérica, germânicos e berberes. Os cruzamentos dessas raças deram origem a animais de porte elegante, beleza plástica, temperamento dóceis e próprios para a montaria.

Os primeiros exemplares da raça Alter chegaram ao Brasil em 1808, com D. João VI, que se transferiu para a Colônia com a família real. Os cavalos dessa raça eram muito valorizados em Portugal e a família real investia em coudelarias (haras) para o aprimoramento da raça. A Coudelaria de Alter foi criada em 1748 por D. João V e viveu momentos de glória durante o século XVIII, formando animais bastante procurados por príncipes e nobres europeus para as atividades de lazer e serviço.

Quando Portugal foi invadido pelas tropas francesas de Napoleão Bonaparte, inúmeras fazendas de criação de cavalos da raça Alter, inclusive a Coudelaria Alter do Chão, foram saqueadas. Nos anos subseqüentes, os cavalos Alter remanescentes no país foram cruzados com diversas raças, principalmente com a raça Árabe. Mas quando D. João deixou Portugal, trouxe para o Brasil alguns dos melhores eqüinos da Coudelaria Alter do Chão. Dos animais que vieram para o Brasil antes da invasão francesa e, portanto, puro exemplares da raça Alter, descende o garanhão ‘Sublime’, considerado o marco inicial da raça Mangalarga Marchador.

A tradição oral nos conta que em 1812, Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, teria recebido como presente do Imperador o garanhão Sublime. Gabriel Francisco teria, então, usado largamente esse reprodutor em suas éguas na Fazenda Campo Alegre, no Sul de Minas (a fazenda era uma herança de seu pai João Francisco Junqueira), daí resultando a base do que viria a ser o Mangalarga Marchador. As primeiras crias desses cruzamentos foram também chamadas de Sublime.

Quanto às éguas brasileiras utilizadas nos cruzamentos, estas foram originadas dos primeiros animais introduzidos no Brasil pelos colonizadores, sendo a maioria de sangue Berbere e Andaluz.

Desde o início dos trabalhos de sua seleção, Gabriel Francisco Junqueira levou em consideração o andamento cômodo, a resistência, rusticidade e o brio dos animais de sua criação. Naquela época, como o cavalo era o único meio de transporte, a notícia da existência de cavalos de andamento cômodo na Fazenda Campo Alegre despertou um grande interesse em todo o Sul de Minas e vários criadores adquiriram animais do Barão de Alfenas.

Alguns pesquisadores, porém, apontam algumas contradições assim como relatos dos descendentes diretos do Barão de Alfenas que não apóiam esta versão. Segundo os mesmos, as datas, tipo de cavalo presenteado, origem do cavalo, etc. não são compatíveis com dados históricos da época.

Fazenda Campo Lindo

Fazenda Campo Lindo, de João Bráulio Fortes Junqueira (n.1837 f. 1901) e Gabriela Vitalina Diniz Junqueira.

Apaixonado pelo campo e pela pecuária, João Bráulio tornou famosa sua marca ‘JB’. João Bráulio conseguiu formar tropa de grande refinamento e expressão racial, sem se descuidar das qualidades funcionais.

Da Fazenda Campo Lindo era outro reprodutor que exerceu grande influência nas tropas do Sul de Minas. Trata-se de Belini, nascido em 1901. Vejamos alguns exemplos.

Pégaso, filho de Belini, serviu na Fazenda Traituba, gerando o excelente Rádio, que por sua vez gerou Sátiro, de capital importância na fixação de um tipo na Fazenda do Angathy. No atual rebanho Herdade domina também a origem de Belini, através de Brasil e Ouro Preto JB, filhos; Londres JB, neto; Belini e Seta Caxias, bisnetos de Belini.

Clemenceau II, neto de Belini, é de uma suma importância no rebanho da Fazenda Tabatinga, já que era avô de Tabatinga Predileto e bisavô de Tabatinga Cossaco.

Na região de São Vicente de Minas, Beline também exerceu marcante influência. Assim é que as Fazendas Engenho de Serra, Pitangueiras, Bela Vista e Porto usaram por vários anos reprodutores ‘JB’, descendentes de Beline: Ouro Preto JB, filho de Beline; Clemenceau II JB, V-8 JF, Panchito JB e Londres JB, netos de Beline, além de Baluarte, filho de Panchito, bisneto, portanto de Beline.

Muito grande foi e é a influência dos animais da Fazenda Campo Lindo nos criatórios atuais, e muitos foram os reprodutores que continuaram na própria Campo Lindo ou influenciando outros criatórios: The Money, Farol, Rio Negro, Clemenceau I e Clemenceau II, Ouro Preto JF, Candidato, V-8, Sargento, Diamante e outros mais.

Urbano Junqueira de Andrade:

Assumida décadas depois por Urbano Junqueira de Andrade, habilidoso cavaleiro e criterioso selecionador das Raças Mangalarga e Mangalarga Marchador, JB tornou-se sinônimo de qualidade, beleza e um andamento aprimorado.Urbano, conhecido por seu árduo trabalho e pela célebre frase:

"O nosso Mangalarga não importa se é mineiro ou paulista"

Abaixo, posto uma entrevista de meu avô, Urbano Junqueira de Andrade à revista

Eqüinos no Brasil, para que possamos melhor compreender o que houve na época, pelas palavras de quem vivenciou todo o ocorrido.

(...) Solicitado pela Revista Eqüinos para que se prestasse informes sobre o início e o desenvolvimento da Raça Mangalarga na região do Sul de Minas, opinei para que esse depoimento fosse feito pelo meu primo e vizinho – José Bento (´Bentinho´) pois, o mesmo, pela ordem de idade, teria mais direitos e, naturalmente, mais conhecimentos do passado.

Mas, com sua recusa, procurarei expressar resumidamente aquilo que vi e o que aprendi com meu pai –

José Bráulio Junqueira de Andrade, e com meu ´Tio Zezico´ – José Olinto Fortes Junqueira, que, sem favor nenhum, foi quem melhor acompanhou a seleção da Raça Mangalarga.A origem do Cavalo Mangalarga já fora por demais divulgada: a história que o Barão de Alfenas, de quem sou descendente direto, ganhou um potro do Imperador e que, cruzando-o com éguas nacionais, originou no cavalo bom de andar braceiro e que, por essa razão, recebeu o nome de Mangalarga (braçada larga).Mas a seleção aprimorada partiu de José Francisco Junqueira – Fazenda do Favacho, meu tetravô, que fora grande fazendeiro e apaixonado caçador de veados e selecionador incomum da Raça Mangalarga. Relembrando, José Francisco comprou em Cristina (MG) um extraordinário potro, só conseguindo fazê-lo oferecendo 40 novilhas holandesas em troca, razão pela qual o potro recebeu o nome de Fortuna. Segundo conversas que tive com‘ Tio Zezico’, dois cavalos contribuíram decisivamente para a formação e a fixação da Raça Mangalarga: o Fortuna e o Bellini J.B. Inicialmente o Fortuna, continuando através do Fortuna II, III, IV e V, dando este o Colorado. Tanto nos rebanhos de Minas Gerais, como nos de São Paulo, levados pelos Junqueira, se analisarmos a fundo, todas as boas linhagens caem no Fortuna. Nos tempos modernos, o principal raçador do Sul de Minas foi Bellini J.B., nascido e criado aqui na Fazenda Campo Lindo. Todas as linhagens que se destacaram, e que continuam se destacando no Sul de Minas, descendem de Bellini. Filhos de Bellini serviram na Fazenda Bela Cruz: - o Brasil, posteriormente vendido a Renato Junqueira Netto; Clemanceau II J.B. e Londres J.B., ambos netos de Bellini, igualmente serviram na Fazenda Bela Cruz. Pégazo, filho de Bellini, serviu na Fazenda Traituba, dando o excelente Rádio, que por sua vez deu Sátyro, servindo na Fazenda Angahy. Calçado, filho de Bellini, serviu na Fazenda dos Lobos. Nas Fazendas Favacho e Campo Lindo, propriedades dos irmãos Gabriel Fortes Junqueira de Andrade (´Tio Bilota´) e José Bráulio Junqueira de Andrade, meu pai, usaram-se intensamente o Bellini J.B. No rebanho Herdade domina também a origem de Bellini, através de Brasil (já citado), Ouro Preto J.B.(filho de Bellini), Londres J.B.(neto de Bellini), Baluarte (bisneto de Bellini) e Seta Caxias (também bisneto de Bellini). Os rebanhos de São Vicente de Minas também sofreram grande influência do sangue Bellini. Os criadores de lá dedicavam-se mais à criação de burros, e posteriormente com a influência de meu pai, inclusive emprestando-lhes reprodutores, sofreram certa transformação. A Fazenda Engenho de Serra, então propriedade de meu bisavô materno – Severino Eugênio de Andrade, a Fazenda Pitangueiras, propriedade de meu avô materno – Urbano de Andrade Reis, a Fazenda Bela Vista e a Fazenda do Porto, de meus primos, usaram por vários anos reprodutores J.B. descendentes do genearca Bellini, quais sejam: Ouro Preto J.B. (filho de Bellini), Clemanceau II J.B. (neto de Bellini), V 8 J.F. (neto de Bellini), Panchito J.B. (neto de Bellini e pai de Baluarte), e Londres J.B. (neto de Bellini). Registro Mangalarga: O Estado de São Paulo, com um conjunto de circunstâncias geográficas, ecológicas e humanas, mantém destacada liderança pois, um grupo de Criadores reuniu-se e fundou em 24.09.1934, a Associação dos Criadores de Cavalos da Raça Mangalarga. Segundo opinião geral, cometeram um erro grave, fechando o Livro de Registro prematuramente quando só haviam sido registrados uma pequena parte do rebanho localizado mais próximo de São Paulo. Certo grupo de criadores aqui da região sulmineira, graças a insistência do ´Tio Zezico´, fora avisado do fechamento do livro e tiveram tempo para registrar. O Livro foi fechado em Dezembro de 1943, mas como já havia sido solicitado o registro, o mesmo foi efetuado em Abril de 1944. Fizeram parte da Comissão de Registro: Renato Junqueira Netto (Presidente da Associação), José Olinto Fortes Junqueira (Diretor) e Dr. Heitor Santiago (Técnico). Eu tive a felicidade de acompanhar a comissão nas referidas fazendas: Angahy, Campo Lindo, Lobos, Favacho e Traituba. Todas estas fazendas possuíam rebanhos numerosos e todos os animais apresentados foram registrados. Entretanto, com os falecimentos do Comendador Adeodato dos Reis Meirelles (Fazenda Angahy); do Sr. Otto Junqueira (Fazenda Traituba) e do ‘Tio Bilota’ – Gabriel Fortes Junqueira de Andrade (Fazenda Favacho), os sucessores deixaram de comunicar à Associação os produtos nascidos e, consequentemente, interromperam os registros, razão pela qual, posteriormente passaram a registrar na Associação dos Criadores do Cavalo Marchador da Raça Mangalarga, que fora fundada em 1948 na cidade de Caxambu (MG).Concluindo, lamento criarmos uma raça com dois registros.(...)”

Depoimento de URBANO JUNQUEIRA DE ANDRADE,

FAZENDA CAMPO LINDO. Cruzília-MG

1981 à Edição no. 44 – pp. 39/42 Revista Eqüinos no Brasil.

Ao que aprendi com meu avô, durante os anos que ele esteve presente, a marca JB permaneceu excluída ao grupo dos Mangalarga Marchadores, pelo fato manterem uma postura contrária ao que ele conhecia como um Cavalo Mangalarga e também ouso dizer, pelo fato de ele ser um pouco tinhoso e turrão.

Mesmo se mantendo afastado, recebeu inúmeras visitas que lhe tomaram potros ao pé de suas melhores matrizes.

Acrescento também, que muitos destes potros consagraram-se campeões Nacionais e foram inscritos, bem como seus descendentes, nos Livros de Elite MM7 e MM8.Sem o cavalo J.B. não teríamos hoje algumas das linhas de sangue famosas nas tropas da Ogar, Caxambu, Granito, Nanzuque, L.N., Mairiflor, L.J., Santa Lúcia, H.B., Selva Morena, Meirelles, J.G., Herdade, Escadinha, Coxilha Grande, Porto Azul, Sedução, (...) e tantas outras.

Por tantos anos Foi solicitada a presença dos cavalos JB. E Hoje, creio que meu tio Luiz Antônio Junqueira de Andrade segue uma linha de pensamento um pouco menos atravancada, dirigindo com louvor a tão renomeada Faz. Campo Lindo, onde ainda se encontram os mais exuberantes e imponentes animais.

 

Ao meu querido Avô, Urbano Junqueira de Andrade (in memorian) e ao meu ‘Tio Tony’ Luiz Antonio Junqueira de Andrade dedico esse texto, com profunda saudade e admiração. 30/07/2008 VIVIAN VILELA JUNQUEIRA VILARINHO

Fontes utilizadas: Revista eqüinos no Brasil

Site: www.pedrigreedaraça.com.br

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gabriel_Francisco_Junqueira

Comentários (5)Add Comment
Mangalarga: história e seleção
escrito por Dito, julho 31, 2008
Agradeço à Vivian pelo grande registro histórico da criação e seleção dos cavalos de raça no Brasil.
Espero que outras pessoas que tiveram o privilégio de participar de algum momento como este, que compartilhe conosco.
O amor ao cavalo por toda sua família fica evidenciado neste depoimento.
Dito
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escrito por VivianJunqueira, julho 31, 2008
Dito, sou eu quem agradece, pelo carinho e pelas palavras à mim e minha familia, espero que todos possam conhecer um pouco mais do nosso trabalho e da raça através desse texto.
Fica registrada esta pequena contribuição e em breve tentarei trazer maiores informações.
Obrigada e espero que gostem.
Abraços.
Vivian Junqueira
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Impredível
escrito por DUDA, julho 31, 2008
Amigos e amigas do cavalo, este depoimento está imperdível, traz um relato muito legal da criação e disseminação da raça Margalarga no Brasil e a importância da Família Junqueira nesse contexto. Gostaria de agradecer a Vivian por nos trazer este rico relato.
Abraços!
Duda
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escrito por faad, agosto 06, 2008
Adorei .... !!!!!
Aproveito para parabenizar e agradecer a Vivian pela matéria, e a familia Junqueira pela maestria com que trabalharam, participando da criação da raça Mangalarga.
Só quem já tem um Mangalarga conhece o prazer de montar um animal com tamanha perfeição e versatilidade.
Unabraço .......
Eduardo Faad
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escrito por jucafleury, setembro 17, 2008
Vivian, parabéns pelo artigo!
Também sinto por criarmos uma raça dividida pelo controle de registros.
Abraços
Juca
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